Adversidades são como remédio, quando em excesso causam efeitos colaterais



"Sofra sem moderação", parecem dizer os ditos espíritas, na sua pregação moralista fundamentada na Teologia do Sofrimento.

Acham que o sofrimento, em doses excessivas, só pode transformar as pessoas em boas, generosas, criativas e ainda mais humanistas.

Grande engano. Quem reage dessa forma depois da overdose de desgraças é apenas uma pequena minoria.

Se essa minoria é famosa, é porque a exceção tornou-se mais conhecida que a regra.

Isso não significa que grandes figuras humanistas se produzam feito grama na relva em virtude do sofrimento excessivo.

A overdose de adversidades faz, na verdade, pessoas ficarem muito, muito cruéis.

Fabrica bandidos, produz estelionatários, cria caluniadores, assassinos, trapaceiros, corruptos, canastrões e gente sórdida de toda espécie.

Temos uma má distribuição de benefícios e necessidades na humanidade contemporânea.

Costuma-se falar no ditado "Deus dá asas a quem não quer voar". Privilégios desiguais fazem com que uns tenham demais o que não precisam e outros careçam até do que lhes é mais essencial.

O Espiritismo brasileiro comprovou que não quer resolver essas injustiças. Quando muito, é só por medidas paliativas de baixos resultados benéficos. Baixíssimos, aliás.

Seus pregadores ficam se preocupando demais em falar para os sofredores extremos aceitarem as desgraças que lhes angustiam.

Pior: falam para os sofredores aceitarem tudo isso calados, sendo desaconselhados a usar a voz alta até nas preces, que precisam ser feitas no mais absoluto silêncio.

Pedem para os sofredores aceitarem desgraças, resignados, enquanto também se resignam com os abusos de algozes e privilegiados.

Isso é sufocar a alma. O Espiritismo brasileiro desaconselha o desabafo, a não ser, de maneira tendenciosa, quando os mais aflitos vão ao tal "auxílio fraterno" das ditas casas espíritas.

Mas aí o conselheiro responde ao desgraçado do momento que ele "está bem", que é só "orar para Deus" e "esperar a bonança vir através da misericórdia do Cristo".

Só que as pessoas fazem tratamento espiritual e só atraem desgraças. Não superam a dificuldade antiga e, para piorar, contraem outras ainda piores.

As adversidades humanas, na verdade, são um remédio de tarja preta, que precisa ser tomado em doses limitadas.

Nesse limite, o sofrimento é necessário como forma de reeducar a alma no que diz aos desejos e necessidades que se tornam abusivos e supérfluos.

Mas quando ele é excessivo, ele cria problemas, provocando nas pessoas o medo, o ódio, a raiva.

E é aí que o Espiritismo brasileiro se torna desumano: prefere que os sofredores se auto-sufoquem, suportando por longo tempo uma sucessão de desgraças e infortúnios sem ter que resolver a não ser de maneira ainda mais difícil.

Nem a sorte mais necessária, como, por exemplo, ganhar na loteria para fugir de um lugar ameaçador e buscar asilo em outro, mais seguro, consegue ocorrer.

Mas a pessoa não pode reclamar. O colecionador de desgraças é, pasmem, convidado pelo moralismo punitivo do Espiritismo brasileiro a agradecer pelas desgraças obtidas.

Isso é desumano, cruel, hipócrita, desrespeitador!

Afinal, a pessoa sofredora quer socorro e não sofrer mais e mais, desperdiçando uma encarnação que só serve para colher ruínas.

E o Espiritismo brasileiro se envaidece. A religião não aceita críticas e, quando elas aparecem, seus pregadores fazem draminha.

Enquanto, num momento, ficam felizes diante do sofrimento do outro, rezando da boca para fora para Deus amparar o pobre coitado, em outro forjam vitimismo, tratando a menor crítica aos seus procedimentos como "chuva de pedras do ódio e da intolerância".

O Espiritismo brasileiro não sofre intolerância religiosa. Quem sofre são o candomblé, o islamismo ou mesmo setores progressistas da Igreja Católica, ligados à Teologia da Libertação, ou de setores também progressistas da Igreja Batista e da Igreja Anglicana.

O Espiritismo brasileiro é tão tolerado religiosamente que até seus erros mais vergonhosos são tidos como "acertos".

Exemplo é a defesa do sofrimento como "atalho" para Deus, como "ingresso" para uma "vida futura" que não sabemos o que realmente é, pois não há estudos sérios a respeito que sinalizem sequer uma menor suposição.

Por isso, o Espiritismo brasileiro é desumano e cruel.

Pede para que pessoas continuem tomando, em doses excessivas, o remédio do sofrimento e da desgraça, como se fossem dopings da "gincana" para o "reino de Deus".

Tratam a encarnação como um processo punitivista, no qual a pessoa não pode sequer trabalhar para ajudar o próximo, fora dos limites fajutos da "caridade espírita".

E aí o Espiritismo brasileiro perde sua função espiritualista de ajudar o próximo, deixando que os sofredores se destruam diante da sucessão excessiva de desgraças e infortúnios, como que num holocausto existencial na vida humana.

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